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SACRAMENTO DA EUCARISTIA




 Santo Tomás de Aquino esclarece:

A respeito de nossa culpa, que ela limpou, de acordo com Apocalipse 1.5: "nos lavou com seu Sangue dos nossos pecados"; e que remete para o que ele diz: "que será derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados ". Que em verdade foi derramado para a remissão dos pecados, não só por muitos, mas por todos, segundo São João: "Ele Mesmo é a vítima de propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo "(1Jo 2,2). Mas porque alguns tornam-se indignos para receber tal efeito, quanto à sua eficácia é dito ser derramado por muitos, nos quais surte o efeito da Paixão de Cristo. Entretanto assinaladamente diz "pro vobis et pro multis", por vós e por muitos, porque este Sacramento vale para perdoar os pecados aos que o recebem a modo de sacramento, o qual assinaladamente se faz notar, ao dizer: por vós, isto é, aos quais havia dito: tomai. Vale também, a modo de sacrifício, a muitos que não o tomam, e por aqueles que se oferece; no qual se dá a entender, ao se dizer: “e por muitos”.

Por comparação com a vida de justiça, que se dá a ser pela fé, segundo diz aos Romanos: "sendo justificados gratuitamente pela graça do mesmo, em virtude da redenção que todos têm em Jesus Cristo, a quem Deus propôs para ser vítima de expiação em virtude de seu Sangue por meio da fé "(3,24). No tocante a isto diz: Mistério, isto é, o que a fé ocultou, porque em todos os sacrifícios do Antigo Testamento a fé da Paixão de Cristo estava oculta, como a verdade na figura. E isto, por não se falar no cânon da Escritura, o tem recebido a Igreja por tradição apostólica. 

À respeito da vida gloriosa, na qual pela Paixão de Cristo temos uma entrada, segundo aquilo de Hebreus: "tendo a firme esperança de entrar no santuário do céu, pelo Sangue de Cristo" (He 10, 19). E quanto a isto diz, "do novo e eterno testamento". Eterno, porque a disposição é sobre a herança eterna; novo, para distingui-lo do antigo, que prometia bens temporais. Daqui o de Hebreus: "e por isso é o mediador de um novo testamento, afim de que mediante sua morte ... recebam a herança eterna prometida aos que tem sido chamados de Deus" (He 1X, 15).”





SUMA TEOLÓGICA – III

Questão 78: A FORMA DO SACRAMENTO DA EUCARISTIA

ARTIGO III

É esta a forma conveniente da consagração do vinho:
“Este é o cálice do meu sangue, do novo e eterno testamento, mistério da fé, que será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados”?

QUANTO AO TERCEIRO, ASSIM SE PROCEDE: parece que esta não é a forma conveniente da consagração do vinho: Este é o cálice do meu sangue, do novo e eterno testamento, mistério da fé, que será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados.

1. Com efeito, como o pão se converte no corpo de Cristo pela força da consagração, assim também o vinho no sangue de Cristo. Ora, na forma da consagração do pão, o corpo de Cristo é indicado diretamente, e nada se lhe acrescenta. Logo, torna-se inadequado que, na forma da consagração do vinho, se ponha o sangue de Cristo de maneira indireta, e se indique diretamente o cálice, ao se dizer: “Este é o cálice do meu sangue”.

2. ALÉM DISSO, as palavras da consagração do pão não são mais eficazes do que as da consagração do vinho, pois ambas são de Cristo. Por isso, logo depois que se diz “Isto é o meu corpo” realiza-se plenamente a consagração do pão. Portanto, logo depois que se diz “Este é o cálice do meu sangue”, realiza-se plenamente a consagração do sangue. E o que se segue não parece ser da substância da forma: tanto que isto só pertence às propriedades deste sacramento.

3. ADEMAIS, a nova aliança origina-se de uma inspiração interna: como se lê na carta do Apóstolo, Hb 8,8-10, que cita as palavras do profeta Jeremias 31,31: “Firmarei com a casa de Israel uma nova aliança, dando minhas leis às suas mentes”. Ora, o sacramento, ao contrário, atua de maneira externa e visível. Logo, não é adequado mencionar na forma do sacramento a “nova aliança”.

4. ADEMAIS, um ser é novo pelo fato de estar próximo do começo de seu existir. Eterno, por sua vez, não tem princípio de existência. Logo, não é exato falar de uma aliança “nova e eterna”, já que é algo contraditório.

5. ADEMAIS, devem-se subtrair às pessoas as ocasiões de errar, conforme ensina o profeta:“Tirai todo obstáculo do caminho do meu povo”(Is 57,14). Ora, alguns erraram ao julgarem que o corpo e o sangue de Cristo estão neste sacramento somente de modo espiritual. Logo, nesta forma se diz impropriamente“mistério da fé”.

6. ADEMAIS, o batismo é o sacramento da fé, enquanto a Eucaristia é o sacramento da caridade. Portanto, dever-se-ia antes figurar na forma o termo “caridade” que “fé”.

7. ADEMAIS, todo este sacramento no referente tanto ao corpo quanto ao sangue é um memorial da paixão do Senhor, conforme está escrito 1Cor 11,26: “Pois todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor”. Não deveria, pois, ser necessário mencionar na forma da consagração do sangue a paixão de Cristo e de seus frutos mais do que já foi feito na consagração do pão, sobretudo uma vez que o Senhor disse, Lc 22,19: “Isto é o meu corpo dado por vós”.

8. ADEMAIS, a paixão de Cristo foi suficiente para todos e eficaz para muitos. Devia-se ter dito que “será derramado por todos” ou “por muitos”, sem o acréscimo de “por vós”.
9. ADEMAIS, as palavras, que constituem este sacramento, recebem sua eficácia da instituição de Cristo. Ora, nenhum evangelista narra que Cristo tenha pronunciado todas estas palavras. Logo, a forma da consagração do vinho não é adequada.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, a Igreja, instruída pelos Apóstolos, usa esta forma na consagração do vinho.

RESPONDO:
Existem duas opiniões a respeito desta forma. Alguns autores afirmaram que somente pertencem à substância da forma deste sacramento as palavras: “Este é o cálice do meu sangue” e não as seguintes. – Ora, isto parece equivocado. Pois as palavras que se seguem são determinações do predicado, a saber, do sangue de Cristo. Por isso, pertencem à integridade da frase.
Por isso, outros dizem, com mais razão, que pertencem à substância da forma todas as palavras seguintes, até o que vem depois:“Todas as vezes que fizerdes isso”. Com efeito, estas últimas palavras fazem parte do uso do sacramento, mas não da substância da forma. E, por isso, o sacerdote pronuncia todas estas palavras com um mesmo rito e modo, isto é, segurando o cálice com as mãos. O próprio Evangelho de Lucas intercala depois das primeiras palavras as seguintes: “Este cálice é a nova Aliança em meu sangue derramado por vós”.
Por conseguinte, deve-se dizer que todas estas palavras pertencem à substância da forma. Pelas primeiras palavras “Este é o cálice do meu sangue” vem significada a própria conversão do vinho no sangue da maneira como se explicou acima, a respeito da forma da consagração do pão. As palavras seguintes designam a força do sangue derramado na paixão, que atua neste sacramento. Tal força tem um tríplice efeito. O primeiro e mais importante é a obtenção da herança eterna, conforme a carta aos Hebreus: “Temos total garantia de acesso ao santuário pelo sangue de Jesus”. E para designar isto se diz: “da nova e eterna aliança”. – O segundo efeito se refere à obtenção da justificação da graça que se faz pela fé, como ensina a Carta aos Romanos: “Foi a ele que Deus destinou para servir de expiação por seu sangue, por meio da fé, afim de ser justo e de justificar aquele que vive da fé em Jesus Cristo”. E a este respeito, se acrescenta:“mistério da fé”. – O terceiro efeito diz respeito a remover o empecilho para os efeitos anteriores, isto é, os pecados, como se indica na Carta aos Hebreus: “O sangue de Cristo purificará nossa consciência das obras mortas”, a saber, dos pecados. E a respeito disso, se diz finalmente: “que será derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados”.

QUANTO AO 1º, portanto, deve-se dizer que quando se diz “Este é o cálice do meu sangue”, trata-se de uma expressão figurada que pode ser entendida de duas maneiras. Antes de tudo como uma metonímia que assume o continente pelo conteúdo, como se dissesse:“Este é o meu sangue que está contido no cálice”. Fala-se assim, porque o sangue de Cristo se consagra na Eucaristia como bebida para os fiéis, o que não aparece sem mais na razão de sangue. Por isso, foi oportuno designar o sangue pelo recipiente próprio da bebida.
Numa segunda maneira, pode-se entender esta frase como metáfora, pois o cálice  significa a paixão de Cristo, que à semelhança do cálice inebria, como se lê em Lm 3,15: “Saturou-me de amargura, de absinto me inebriou”. Desta sorte, o próprio Senhor chama sua paixão de cálice, ao dizer em Mt 26,39: “Este cálice passe longe de mim”. O sentido é então: “Este é o cálice da minha paixão”. Faz-se menção dela ao consagrar o sangue separadamente do corpo, já que o sangue se separa do corpo pela paixão.
QUANTO AO 2º, deve-se dizer que, uma vez que o sangue consagrado separadamente do corpo simboliza expressamente a paixão, menciona-se então o efeito da paixão de preferência na consagração do sangue a fazê-lo na consagração do corpo, que é antes o sujeito da paixão. Isto é também designado pelas palavras do Senhor: “que será entregue por vós”, como se dissesse: “que sofrerá a paixão por vós”.

QUANTO AO 3º, deve-se dizer que o testamento consiste em dispor de uma herança. Com efeito, Deus dispôs que a herança celeste fosse dada aos homens pela força do sangue de Jesus Cristo: assim se lê em Hb 9,16: “Onde há testamento, é preciso que se verifique a morte do testador”. De duas maneiras é dado aos homens o sangue de Cristo. Primeiramente em forma de figura, que pertence ao Antigo Testamento. O mesmo autor da carta aos Hebreus (v. 18) conclui: “Por isso mesmo, a primeira aliança não foi instaurada sem efusão de sangue”. Isso fica claro quando se coteja com o livro do Êxodo 24,7-9: “Tomou o livro da aliança e o leu ao povo. Moisés tomou o sangue e com ele aspergiu o povo, dizendo: ‘Este é o sangue da aliança que o Senhor firmou convosco, com base em todas estas palavras”.
Numa segunda maneira, o sangue de Cristo é oferecido aos homens na verdade da realidade. Isto é próprio do novo Testamento. É isso que diz o autor da Carta aos Hebreus um pouco antes (v. 15): “Eis por quê, ele (Cristo) é mediador de um testamento novo, para que tendo a sua morte intervindo, os que são chamados possam receber a herança já prometida”. Portanto, este texto se refere ao“sangue da nova aliança”, que já não se manifesta de modo figurado, mas na realidade. Por isso, se acrescenta “que será derramado por vós”. – A inspiração interior se origina da força do sangue, já que somos justificados pela paixão de Cristo.

QUANTO AO 4º, deve-se dizer que este testamento é “novo” em relação ao dom feito. Por sua vez, diz-se “eterno”, tanto por causa do desígnio eterno de Deus, quanto da herança eterna, disposta por este testamento. A própria pessoa de Cristo, por cujo sangue este testamento foi disposto, é eterna.

QUANTO AO 5º, deve-se dizer que a palavra “mistério”, inserida aqui, não visa excluir a verdade da realidade, mas mostrar-lhe o caráter velado. Pois, até mesmo o sangue de Cristo está neste sacramento de modo encoberto, assim como também a sua paixão foi figurada no antigo Testamento.

QUANTO AO 6º, deve-se dizer que chama-se “sacramento da fé” por ser objeto da fé. Com efeito, somente pela fé se pode afirmar que o sangue de Cristo está realmente presente na Eucaristia. Também a paixão de Cristo justifica pela fé. O batismo, por sua vez, se diz“sacramento da fé” por ser uma proclamação da fé. – A Eucaristia é, sem dúvida, o “sacramento da caridade”, enquanto a simboliza e realiza.

QUANTO AO 7º, o sangue consagrado separadamente do corpo representa de maneira mais expressiva a paixão de Cristo. Por isso, se faz menção dela e de seu fruto antes na consagração do sangue do que na consagração do corpo.

QUANTO AO 8º, deve-se dizer que o sangue da paixão de Cristo é eficaz não somente para os judeus eleitos, a quem foi dado o sangue da antiga aliança, mas também para os pagãos; nem somente para os sacerdotes, que celebram este sacramento nem unicamente para aqueles que o recebem, mas também para aqueles para quem ele foi oferecido. Por isso, o Senhor diz expressamente “por vós” judeus “e por muitos”, a saber, pelos pagãos; ou “por vós” que comungais “e por muitos” por quem se oferece.

QUANTO AO 9º, deve-se dizer que os evangelistas não pretendiam transmitir as formas dos sacramentos, que deveriam manter-se de modo secreto na Igreja primitiva, como diz Dionísio, no final de sua Hierarquia Eclesiástica. Pretenderam narrar a história de Cristo.
Contudo, quase todas estas palavras podem ser tiradas da Escritura. Assim, “Este é o cálice”vem do Evangelho de Lucas 22,20 e da 1ºCarta aos Coríntios 11,25. Em Mateus 26,28 se diz:“Pois isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, derramado em prol da multidão, para o perdão dos pecados”. – O que se acrescenta,“eterna” e “mistério da fé”, vem da tradição do Senhor, que chegou à Igreja pelos Apóstolos, conforme ensina Paulo em 1Cor 11,23: “Eis o que eu recebi do Senhor e o que vos transmiti”.


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