DO SUMO PONTÍFICE
LEÃO XIII
1. Restaurar os princípios da sabedoria cristã e conformar plenamente com eles a vida, os costumes e as instituições dos povos, é uma necessidade que cada dia se torna mais evidente. Da desestima deles derivou tão caudalosa enchente de males, que nenhum homem de são juízo pode tolerar o estado presente sem ansioso cuidado, nem alargar os olhos sem receio do futuro.
2. Tem-se feito, é verdade, não medíocre progresso nas comodidades corporais e extrínsecas; mas toda essa natureza sensível, a abundância de meios, as forças e as riquezas, se podem gerar comodidades e aumentar a serenidade da vida, não poderão nunca satisfazer a nossa alma, criada para coisas mais altas e com mais gloriosos destinos. Olhar a Deus e encaminhar-se para ele, tal é a lei suprema da vida do homem, o qual, criado como foi à sua imagem e semelhança, é impulsionado com toda a força de sua mesma natureza a gozar do seu Criador. Todavia, esse caminhar para Deus não é obra de movimentos ou esforços corporais, mas atos próprios da alma, que são: conhecimento e amor. Deus é a primeira e suprema verdade, e da verdade não vive senão a inteligência. Deus é a santidade perfeita e o sumo bem, e a este só a vontade pode aspirar e chegar eficazmente por meio da virtude.
Fim último da sociedade
3. Ora, o que se diz dos indivíduos, também se aplica à sociedade doméstica e à civil. Efetivamente, se a própria natureza instituiu a sociedade, não foi para que o homem a seguisse como a seu último fim, mas para que nela e por ela achasse meios eficazes que o auxiliassem no aperfeiçoamento de si mesmo. Logo, se houver sociedade que não procure senão as vantagens externas, vida cômoda e delicada, se tiver por praxe pôr a Deus de lado na administração da coisa pública e descurar as leis morais, desvia-se perfidamente do seu fim e das prescrições da natureza e, mais que sociedade e comunidade de homens, é uma imitação enganosa e um vão simulacro da verdadeira sociedade.
4. Ora, esses bens da alma, que acima dissemos, os quais não se encontram senão na verdadeira religião e na prática perseverante dos preceitos cristãos, vemos que se escurecem cada vez mais entre os homens ou de esquecidos, ou de enfastiados, e parece em certo modo que, quanto mais adianta o progresso no tocante ao corpo, maior se torna a decadência dos bens da alma. E não são pequena prova da diminuição e enfraquecimento da fé cristã as injúrias que com tanta freqüência, à luz do dia e aos olhos do mundo inteiros, se estão fazendo à religião, injúrias que numa época zelosa da religião de forma alguma teria tolerado.
4. Ora, esses bens da alma, que acima dissemos, os quais não se encontram senão na verdadeira religião e na prática perseverante dos preceitos cristãos, vemos que se escurecem cada vez mais entre os homens ou de esquecidos, ou de enfastiados, e parece em certo modo que, quanto mais adianta o progresso no tocante ao corpo, maior se torna a decadência dos bens da alma. E não são pequena prova da diminuição e enfraquecimento da fé cristã as injúrias que com tanta freqüência, à luz do dia e aos olhos do mundo inteiros, se estão fazendo à religião, injúrias que numa época zelosa da religião de forma alguma teria tolerado.
5. Por isso mal se pode calcular quão grande multidão de homens se encontra em risco de perdição eterna; e não só os homens, mas também as mesmas sociedades e Estados não poderão conservar-se largo tempo incólumes, porque com a ruína das instituições e dos costumes cristãos, arruinados ficam sem remédio os mais sólidos fundamentos da sociedade humana. Resta só a força material para manter a ordem e tranqüilidade pública; mas essa força bem fraca é, quando não se apóia na religião, tornando-se mais apta a criar escravidão do que obediência; traz em si mesma os germes de grandes perturbações. Assaz catástrofes nos apresentou já o século em que vamos, e quem sabe as que estão ainda por vir!
Magistério da Igreja
6. Por conseguinte o mesmo tempo em que vivemos, incita-nos a procurar o remédio onde ele se encontra, isto é, a restabelecer, na vida particular e em todas as partes do organismo social, os princípios e práticas do cristianismo, que é o único meio capaz de exterminar os males que nos vexam e de prevenir os perigos que nos ameaçam. A isso, veneráveis irmãos, devemos atender, nisso com todo o empenho e esforço trabalhar. Por essa razão, embora nós tenhamos já tratado essas matérias em outras circunstâncias, segundo se nos oferecia ensejo, parece-nos todavia útil expor com mais desenvolvimento nesta carta os deveres dos católicos; deveres, cujo cumprimento exato contribuirá admiravelmente para se salvar a sociedade. Vivemos numa quadra de luta desesperada e quase cotidiana sobre matérias de máximo interesse, na qual de maravilha se não deixarão alguma vez embair uns, desencaminhar outros e esmorecer muitos. E daí, veneráveis irmãos, o nosso dever de advertir, ensinar e exortar a todos os fiéis, como requerem os tempos “para que ninguém abandone o caminho da verdade”.
7. Está fora de toda a dúvida que na prática da vida mais e mais graves obrigações acorrem aos católicos do que aos homens pouco penetrados da nossa fé ou totalmente desprovidos dela. Quando Jesus Cristo, consumada a redenção do gênero humano, mandou os apóstolos que fossem pregar o Evangelho a toda a criatura, impôs logo a todos os homens a obrigação de escutar e crer o que lhes fosse ensinado, obrigação à qual vinculou indispensavelmente a salvação eterna: “o que crer e for batizado, será salvo; o que, porém, não crer será condenado” (Mc 16,16). Mas, uma vez que o homem abraçou, como devia, a fé cristã, fica por esse fato sujeito à Igreja, como seu filho, e torna-se membro da mais vasta e mais santa sociedade, a qual o Pontífice Romano governa com missão expressa e autoridade suprema, debaixo de sua cabeça invisível, que é nosso Senhor Jesus Cristo.
8. Ora, se a lei natural nos manda amar com predileção extremosa e defender a terra em que nascemos e os criamos, de modo que todo o bom cidadão esteja pronto a arrostar até a morte pela sua pátria, com muito maior razão devem os cristãos animar-se de iguais sentimentos a respeito da Igreja, que é a cidade santa do Deus vivo, obra imediata de Deus e por ele mesmo organizada, a qual anda, sim, peregrinando nesta terra, mas é a que chama os homens e os instrui e encaminha à eterna bem-aventurança. Amemos, pois, e muito a nossa pátria terrena que nos deu a vida mortal: mas amemos ainda mais a Igreja à qual somos devedores da vida imortal da alma, porque é justo preferir aos bens da alma aos do corpo, e os deveres para com Deus têm um caráter mais sagrado que os deveres para com os homens.
7. Está fora de toda a dúvida que na prática da vida mais e mais graves obrigações acorrem aos católicos do que aos homens pouco penetrados da nossa fé ou totalmente desprovidos dela. Quando Jesus Cristo, consumada a redenção do gênero humano, mandou os apóstolos que fossem pregar o Evangelho a toda a criatura, impôs logo a todos os homens a obrigação de escutar e crer o que lhes fosse ensinado, obrigação à qual vinculou indispensavelmente a salvação eterna: “o que crer e for batizado, será salvo; o que, porém, não crer será condenado” (Mc 16,16). Mas, uma vez que o homem abraçou, como devia, a fé cristã, fica por esse fato sujeito à Igreja, como seu filho, e torna-se membro da mais vasta e mais santa sociedade, a qual o Pontífice Romano governa com missão expressa e autoridade suprema, debaixo de sua cabeça invisível, que é nosso Senhor Jesus Cristo.
8. Ora, se a lei natural nos manda amar com predileção extremosa e defender a terra em que nascemos e os criamos, de modo que todo o bom cidadão esteja pronto a arrostar até a morte pela sua pátria, com muito maior razão devem os cristãos animar-se de iguais sentimentos a respeito da Igreja, que é a cidade santa do Deus vivo, obra imediata de Deus e por ele mesmo organizada, a qual anda, sim, peregrinando nesta terra, mas é a que chama os homens e os instrui e encaminha à eterna bem-aventurança. Amemos, pois, e muito a nossa pátria terrena que nos deu a vida mortal: mas amemos ainda mais a Igreja à qual somos devedores da vida imortal da alma, porque é justo preferir aos bens da alma aos do corpo, e os deveres para com Deus têm um caráter mais sagrado que os deveres para com os homens.
9. De resto, se bem ponderarmos, o amor sobrenatural da Igreja, e o amor da pátria são dois afetos que procedem do mesmo princípio eterno, de ambos é o mesmo Deus autor e causa, e por isso nunca poderá um ir de encontro ao outro. Sim, nós podemos e devemos por um lado amar-nos a nós mesmos, querer o bem ao próximo, amar a coisa pública e a autoridade que a governa, e por outro lado e ao mesmo tempo venerar a Igreja como a Mãe, e amar a Deus com o maior amor que nos caiba no coração.

Comentários
Postar um comentário